Após enfrentar problemas de abastecimento de trigo e observar uma forte elevação dos preços, que ainda configura o atual mercado da commodity, regiões não tradicionais começam a incrementar a produção brasileira. Como potenciais pólos de produção despontam Goiás (GO), Minas Gerais (MG) e São Paulo (SP) que, por meio de programas das suas respectivas secretarias de Agricultura, chegaram a dobrar o volume cultivado. A iniciativa é apoiada pelo governo federal, já que o trigo foi um dos maiores vilões da inflação no primeiro semestre. Durante os primeiros meses do ano nem mesmo a implementação de políticas governamentais e a expectativa de crescimento da produção no País brecaram a aceleração do preço do trigo e seus derivados, que chegaram a registrar altas acima de 60% em 12 meses. O problema do desabastecimento também não foi totalmente solucionado. Uma pesquisa feita pela Secretaria de Agricultura da Argentina, na última semana, revelou que a triticultura teve uma grande depreciação na sua rentabilidade, o que deve desestimular o plantio e conseqüentemente a oferta do cereal. Hoje o prejuízo que um arrendatário tem ao alugar uma área para a produção de trigo na Argentina está estimado em US$ 902 por hectare, o que equivale a um saldo negativo de US$ 73,1 mil na safra 2008/2009. Atentos a esse cenário, produtores brasileiros aumentam o plantio incentivados pela indústria nacional, que sofre com a histórica dependência do Brasil em relação ao produto argentino. A safra de trigo em GO, prevista pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), deve aumentar 126,5%. O estado lidera o bloco do Centro-Oeste na produção de trigo que deve chegar a 175 mil toneladas na próxima safra. Já o Sudeste conta com dois estados investindo nessa expansão: São Paulo e Minas Gerais. A safra brasileira está estimada em cerca de 5 milhões de toneladas. Em São Paulo, o programa com as indústrias moageiras, que colocou à disposição do produtor variedades produzidas pelo Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (DSMM/Cati/SAA), garantiu um expressivo incremento de área. A iniciativa prevê a distribuição de sementes produzidas pela SSA, pagas pelos moinhos que, por sua vez, garantem contratos para aquisição da matéria-prima. Segundo o levantamento divulgado pela SSA, a safra paulista teve um incremento de área de 84%, para 75,2 mil hectares. Na produção o aumento foi ainda mais expressivo: 102%, saindo de 93 mil para 190 mil toneladas. "Estamos mais que dobrando o número de sementes para esse ano. Serão 150 mil sacos (de 50 quilos) de sementes de trigo e mais 40 mil sacos de triticale", revela Armando Portes, diretor do DSMM/Cati/SAA. Segundo Portes, na última safra a demanda foi grande tanto do lado da produção, estimulada pelos preços, quanto da indústria que viu facilidades na distribuição. "Não vemos motivo para que a procura não continue crescendo na mesma intensidade nesta safra". Se em São Paulo a indústria financia a produção, em Minas Gerais o desafio dos produtores locais é atrair moinhos para o estado. "Temos três ou quatro moinhos na região, enquanto no Paraná eles passam de 100 . Queremos gerar escala e atraí-los para cá", afirma Lucas Aernoudts, presidente da Associação dos Triticultores de Minas Gerais (Atriemg). Como incentivo, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Trigo no Estado (Comtrigo). De acordo com o coordenador da entidade, Lindomar Antônio Lopes, no bloco de estados do Brasil Central existe uma área de 2 milhões de hectares com potencial para a produção de trigo.