Soja - MT dá a largada em nova safra de soja de margens apertadas
Data:
16/09/2008
Se a safra 2007/08 de soja foi marcada, em grande medida, pelo lamento dos produtores que venderam boa parte de sua produção antecipadamente - e, com isso, não puderam aproveitar totalmente a disparada do preço do grão no mercado internacional -, a safra 2008/09 terá em seu DNA o receio com a escalada dos custos dos insumos, em particular do adubo. A cotação da soja, mesmo que ainda bem acima de suas médias históricas, tem caído neste trimestre, e os fertilizantes, que acompanham o preço do petróleo, mantêm-se em alta. A presença da soja no campo está oficialmente autorizado a partir de hoje em Mato Grosso, maior produtor brasileiro do grão - que, por sua vez, é o mais importante produto na pauta de exportações do agronegócio do país. Ontem encerrou-se o vazio sanitário no Estado, uma janela de 90 dias durante a qual o cultivo é proibido como forma de estancar a proliferação da ferrugem asiática, uma das doenças que mais abatem a cultura. Cotações do grão em queda e insumos em alta, com a conseqüente redução do uso dos fertilizantes, já fazem os produtores temer margens negativas. A fase mais aguda de plantio não deverá começar hoje, já que os produtores ainda devem esperar as primeiras chuvas para semear em solo mais úmido. O trabalho deve começar com mais ênfase no terço final deste mês. Em municípios como Sapezal e Campos de Júlio, contudo, no oeste mato-grossense, há produtores que "queimam a largada", segundo técnicos, e fazem o que se chama de "plantio na poeira". Algumas áreas já receberam sementes no último fim de semana. "A soja demora dois dias para germinar, e a lei proíbe planta viva no campo. Algum plantio foi feito para experimento do solo e regulagem de plantadeiras", diz Luiz Nery Ribas, gerente técnico da Associação dos Produtores de Soja do Estado do Mato Grosso (Aprosoja). Como não havia semente no solo nos últimos três meses, todas as primeiras estimativas de produção foram feitas em pesquisas sobre intenção de plantio. Para todo o Brasil, que encerrou a safra 2007/08 com produção de 60 milhões de toneladas, as projeções são de crescimento entre 2,5% a até 10%. Em Mato Grosso, espera-se avanço próximo de 4%, mas também há apontamentos para leve retração da cultura no Estado. "Em julho, a previsão era de uso 5,5% maior de áreas marginais em Mato Grosso, mas agora já acredito que esse número será de 3%", diz Eduardo Godoi, analista da Agência Rural em Cuiabá. Nova pesquisa será finalizada pela empresa nesta semana. A primeira apontava produção de 18,4 milhões de toneladas no Estado e de 64,1 milhões de toneladas no país. Não será surpresa se a produção recuar, mesmo com ampliação de área. O vilão, para citar o cerne da preocupação dos produtores na safra 2008/09, é o encarecimento dos insumos. "Esta é uma safra que não admite erros. O custo operacional está em alta e o preço da soja, em queda. A safra está começando com um padrão tecnológico diferente, mais baixo, que a anterior", diz Seneri Paludo, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agrícola (Imea). O custo operacional médio da safra 2007/08 foi de US$ 600 por hectare. Em agosto, no pólo do município de Sorriso, esse peso passou a US$ 1.041 e, em Campo Novo do Parecis, a US$ 923, segundo dados do Imea. O instituto calcula que o preço da soja não poderá ficar abaixo de US$ 19 por saca para o produtor conseguir margens positivas. E sob a pressão extra de repetir a rentabilidade da safra 2007/08, de 53 sacas por hectare, a maior da história. "Se o preço médio ficar abaixo de US$ 18 por saca, vai haver prejuízo. O mercado começa a safra apreensivo", diz o superintendente. A valorização do dólar nas últimas semanas, que tende a favorecer os exportadores, poderia ajudar a equilibrar as contas, mas também esse fator é visto com ressalva. "O dólar a R$ 1,80 é irreal e chegou a esse nível por conta da especulação. Não dá para fazer as contas para o próximo ano com o dólar nesse preço. Ele deve voltar a ceder", diz Flávio França Júnior, analista da Safras&Mercado. O primeiro levantamento de campo da Safras será apresentado em outubro. Em julho, a pesquisa de intenção de plantio mostrou tendência de aumento de área em Mato Grosso (de 5,60 milhões para 5,75 milhões de hectares), mas já apontou a possibilidade de queda de 1,7% da produção no Estado, para 17,5 milhões de hectares. O Estado, caracterizado pela presença de produtores de grande porte, é o mais dependente das vendas antecipadas para o financiamento da produção. Também nesse quesito o quadro é mais preocupante: até o início deste mês, 21% da produção esperada havia sido vendida de forma antecipada, um contraste com os 40% da mesma etapa da safra 2007/08. "As vendas antecipadas de 2007 foram muito fortes, mas o número está abaixo também da média histórica", afirma França Júnior.