Soja - Safras recordes aumentarão disputas para ocupar mercado de soja
Data:
21/01/2010
Com a produção de soja global crescendo 20 por cento na safra 2009/10 e a demanda estimada para aumentar bem menos, algo em torno de 6 por cento em relação a 2008/09, a disputa para ocupar o mercado mundial deve ser acirrada neste ano, disseram analistas e corretores.
Esse acirramento na competição, que pode resultar em preços mais frouxos, será intensificado após a confirmação de grandes safras do Brasil e Argentina, segundo e terceiro produtores globais, que serão somadas a uma colheita também recorde dos Estados Unidos, o principal player mundial.
Enquanto a safra norte-americana já está colhida, resultando em mais de 90 milhões de toneladas, o Brasil apenas começou os trabalhos de colheita no Centro-Oeste, e a safra da Argentina deverá chegar ao mercado apenas ao final de março.
"Isso fará com que os estoques mundiais voltem aos níveis de anos anteriores... deverá segurar reações de preços", afirmou o analista Lucílio Alves, do Cepea, referindo-se às previsões para a oferta e demanda global em 09/10.
Os preços em Chicago já refletem a expectativa de uma oferta maior, com queda de cerca de 10 por cento no acumulado do mês.
"Nesta situação (de oferta), sem dúvida, a concorrência aumentará", acrescentou o analista do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.
O analista de soja da corretora Cerealpar, Steve Cachia, com escritório em Malta, disse que a força da Argentina não pode "ser subestimada", embora o clima ainda precise continuar favorável para a confirmação da safra, recém-semeada.
"A disputa tende a ser bastante acirrada", ressaltou Cachia, lembrando que a Argentina deve retomar boa parte do mercado de soja em grão perdido para Brasil e EUA em 08/09.
Na temporada passada, uma severa seca no país vizinho resultou em uma safra argentina 20 milhões de toneladas menor em relação às estimativas iniciais.
Mas agora, com a Argentina exportando em 09/10 cerca de 10 milhões de toneladas, quase o dobro da temporada passada, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), as vendas do Brasil tendem a recuar do recorde de 2009.
Em 2009, as exportações brasileiras do complexo soja, o principal produto do agronegócio do Brasil, atingiram 17 bilhões de dólares. E só ficaram estáveis ante 2008, em meio a preços mais baixos, porque o volume exportado de grãos foi recorde, alcançando 28,5 milhões de toneladas, segundo o Ministério da Agricultura.
O USDA prevê redução de 5 milhões de toneladas nas exportações do Brasil em 09/10, volume semelhante ao aumento esperado para as exportações da Argentina, que é o maior exportador global de farelo e óleo de soja.
Para este ano, com uma safra estimada para crescer 8 milhões de toneladas, a 65 milhões de toneladas, os brasileiros também enfrentarão uma concorrência maior dos Estados Unidos, que já firmaram contratos para vendas à China, o maior importador global, em volume 70 por cento maior ante a mesma época do ano passado.
COMPETITIVIDADE
Os especialistas são unânimes em afirmar que o real forte frente ao dólar é o principal problema para a competitividade da soja brasileira, reduzindo a rentabilidade do produtor.
"Se considerar a exportação, o que mais pesa é a taxa de câmbio, não só para a soja, mas também para as demais commodities exportadas", afirmou o analista da Céleres Leonardo Menezes.
Do lado da Argentina, o câmbio não é tão desfavorável para a formação dos preços locais, mas o governo argentino taxa em 35 por cento as exportações da oleaginosa, lembrou Menezes. Esse sistema tarifário frequentemente gera protestos da parte de produtores.
Sem prever grandes mudanças no câmbio e antevendo a grande safra global, os produtores já se preparam para ganhar mais na escala vendida do que com preços.
"O produtor está vendo é que o preço vai ser menor, mas a safra vai ser maior. Aqui no Paraná vão ser até 4,5 milhões de toneladas a mais de soja no mercado. Não vamos vender a 42 (reais por saca), mas vamos vender a 35, 37, 38, e o valor (bruto) da produção total vai ser melhor do que o ano passado", afirmou Robson Mafioletti, assessor técnico e econômico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), lembrando que os custos de produção foram mais baixos em 09/10.
As menores exportações esperadas para o Brasil também permitirão que o país recupere estoques e aumente o processamento interno, acrescentaram os analistas.