Safra recorde no Brasil e no exterior tende a deprimir cotação da oleaginosa, mas produtor pode ter perda reduzida com alta da moeda
No Brasil, previsão é que produção chegue a inéditos 66 milhões de toneladas; rentabilidade deve ser menor que a de 2009, diz analista
A safra brasileira de soja avança, e a boa produtividade atingida no campo já indica novos números de produção. A estimativa mais recente da AgRural prevê 66 milhões de toneladas, um volume ainda não registrado pelo Brasil.
Esse volume recorde vai se somar aos 91,5 milhões de toneladas já colhidos nos EUA e aos 53 milhões que deverão ser colhidos na Argentina.
Ou seja, os três maiores produtores mundiais vão obter produção recorde. Na ponta do lápis, serão 40 milhões de toneladas a mais do que no ano passado. O efeito dessa superprodução recai sobre os preços internacionais, que estão em baixa, apesar do apetite chinês nas importações.
No final de novembro, o primeiro contrato de soja era negociado a US$ 10,6 em Chicago. Ontem, estava a US$ 9,3.
Um pequeno alívio para os produtores e exportadores brasileiros começa a vir da recente valorização do dólar, devido a problemas enfrentados por algumas das economias europeias. Mas essa alta tem apenas um lado bom. Internamente, os produtores brasileiros recebem mais reais pela soja vendida, principalmente aqueles que fizeram contratos de venda em dólar.
Externamente, a alta do dólar derruba os valores da oleaginosa em Chicago, principal praça formadora dos preços internacionais. Além de o produto ficar mais caro para os importadores, cujas compras se baseiam no dólar, as cotações caem porque os fundos de investimentos buscam mercados mais seguros nas crises.
"Dólar próximo de R$ 1,90 é uma dádiva para a agricultura, mas tem de ficar nesses patamares", diz Fernando Muraro Jr., da AgRural.
Pela primeira vez nos últimos anos há uma inversão do valor do dólar entre o momento do plantio e o da venda do produto. Nos anos anteriores, os brasileiros sempre tiveram um dólar mais elevado no plantio -o que aumenta os custos- do que na hora da comercialização. Nesta safra, a situação deve registrar uma inversão, segundo Muraro.
Apesar dessa recuperação do dólar, a rentabilidade dos produtores brasileiros não atingirá os patamares do ano passado, segundo Muraro.
Mas a moeda norte-americana mostrou sinais de recuo ontem. O dólar fechou a R$ 1,874, com queda de 0,9%. No ano, a divisa americana acumula valorização de 7,5%.
Produção
A AgRural, especializada no setor de grãos, refez as estimativas de produção devido ao clima favorável. Um dos destaques será o Paraná, que deverá elevar a produção deste ano para 13,5 milhões de toneladas, 42% a mais do que em 2009, quando o Estado foi afetado por adversidades climáticas. A área plantada no Paraná cresceu apenas 8%, mas a produtividade será 31% maior.
Já Mato Grosso, líder nacional em produção, não terá aumento em produtividade, mas teve crescimento de 6% na área plantada, o que deverá garantir ao Estado um aumento de 6% na produção, prevista em 19 milhões de toneladas.
Na avaliação da AgRural, 31% da safra já foi comercializada, com destaque para a região Centro-Oeste, onde as vendas já atingem 45%, acima dos 38% de há um ano. Os produtores de Mato Grosso já comercializaram 54% da safra.